Abrigo de Ventos
Devemos ser suaves, suaves, suaves uns com os outros, porque somos muito frágeis...
Quinta-feira, 8 de Março de 2012
O que gostaria de escrever...
Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
e no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O Tempo apaga tudo menos esse
Longo indélevel rasto
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética.
Quinta-feira, 1 de Março de 2012
março
...mas reparem no vento de março desdobrando os freixos e
na voz de gente da erva
desejosa que a compreendamos...
António Lobo Antunes
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?
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Sábado, 4 de Fevereiro de 2012
Nestes dias de primavera, que não tarde estão aí.....
Um olhar distraído pela janela
Que iremos nós fazer nestes dias de primavera, que não tarde estão aí? hoje de manhã o céu estava cinzento, mas, se agora formos à janela, temos uma suspresa e encostamos a cara ao fecho.
Lá em baixo, vemos a luz do sol que já se está a pôr, no rosto da rapariguinha que passa, olhando em volta, e ao mesmo tempo vemos a sombra do homem que vem atrás dela, apressado.
No momento seguinte, já o homem passou e o rosto da criança é todo luz.
Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos.
Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
um sorriso luz
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso,
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade (19.01.1923-13.06.2005)
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012
olhares
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Sophia de mello Breyner Andresen
Coral
Esta vista de mar, solitariamente, dói-me.
Apenas dois mares, dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede o amor em dois olhares.
Fiama Hasse Pais Brandão
As Fábulas.
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o tempo
Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio.
E suportar é o tempo mais comprido.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Coral. Obra Poética.
Se você não demorar muito
posso esperá-lo por toda a minha vida.
Oscar Wilde
Quem me roubou o tempo que era um
quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Poemas dispersos.Obra Poética
entre mãos
Há coisas conhecidas e coisas desconhecidas;
entre elas, ficam as portas.
William Blake
Só me conhece quem me sentiu as mãos.
João Pedro Grabato Dias
Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
Mãe. Uma vida inteira.
-Mãe
comigo a pensar
- quem sou eu?
- quem é o eu que diz que sou eu?
eu antes do meu marido não necessitava de perguntar quem era
dado que eu era eu, nenhuma porção minha fora de mim como agora,
nenhuma porção
- Mãe
e eu
- O que é mãe?
António Lobo Antunes
Eu Hei-de Amar uma Pedra
Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo,
e ninguém suspeitar dos traumas,
das quedas, dos medos, dos choros"
Caio Fernandes Abreu
Cartas
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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
os nossos janeiros
...hei-de reconhecer os janeiros
(dúzias de janeiros prometo)
pela pressa das nuvens,
chegue comigo à janela, dê-se conta,
perceba...
António Lobo Antunes
Eu Hei-de Amar Uma Pedra
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gosto / não gosto
gosto dos meus filhos. gosto de mim. gosto do P. gosto de palavras. gosto de poesia. gosto do mar. gosto de caminhar. gosto de cozinhar. gosto do cheiro a terra molhada. gosto da madrugada. gosto de dormir a "siesta". não gosto de impostores. não gosto de oportunistas. não gosto de pessoas falsas. não gosto de invejosos. gosto de flores de laranjeira. não gosto de cortar flores. gosto de limoeiros. gosto do aroma das "caneleiras". gosto do luar de janeiro. gosto de disputar corridas com a Lua. gosto de dormir. gosto de tomar pequeno almoço na cama. gosto de chupar caroços de nêsperas. gosto de sopa. gosto de pêssegos. gosto de melão. gosto de cerejas. gosto de mãos. gosto de sorrisos. não gosto de "públicas virtudes". gosto de "vícios privados". gosto de fado. gosto de Portugal. gosto de África. gosto do Brasil. não gosto da Alemanha. não gosto de máfias. gosto de Vladivostok. gosto do Expresso do Oriente. gosto do "caracter" dos gatos. não gosto de "donos". odeio violadores. não gosto de nulidades. não gosto de porco. gosto de peixe. gosto de saladas. não gosto de Kiwi. gosto de laranjas. gosto de ananás. gosto de papaia. gosto de manga. gosto de banana. gosto da maçã e do etc. não gosto de doces. não gosto de salgado. não gosto de fígado. não gosto de fritos. não gosto de massa. não gosto de coca-cola. não gosto de refrigerantes. gosto de água. gosto de arroz. gosto de pão. gosto da primavera. gosto de aves. gosto do canto das aves. gosto de raposas. gosto do fogo da lareira. gosto de ar frio. gosto do azul. gosto de neve. não gosto de chuva. não gosto de lixo. não gosto de dias pequenos e escuros. gosto do vento. gosto do Outono de setembro e outubro. não gosto de "línguas de trapo". não gosto de intrigas. não gosto de corruptos. não gosto de adictos. não gosto de tabaco. gosto de livros. gosto da Lua. gosto das estrelas. não gosto de pornografia. não gosto de escravatura. não gosto de exploração. não gosto de injustiças. não gosto de estatísticas. gosto de filo/sofia. gosto de literatura. gosto de música. gosto de Brel. gosto de Caetano Veloso. não gosto de "bruxas". não gosto de circo. não gosto de palhaços. não gosto de Bancos. não gosto do "Capital". não gosto da "Crise". gosto de ovo estrelado. gosto de nozes. gosto de chocolate. gosto do Douro. gosto do Porto. gosto de Coimbra. gosto de branco. gosto de "África Minha". gosto de "Um Eléctrico Chamado Desejo". gosto do "Esplendor na Relva". não gosto do "Último Tango em Paris" mas, gostei de ver. gosto da "Insustentável Leveza do Ser". gosto de Steinbeck. gosto de Dostoiévski. gosto de Italo Calvino. não gosto de "escritores" que escrevem livros "ao molho". não gosto de monarquias. não gosto de ditadores, mesmo mortos. não gosto de políticos. não gosto de pessoas "vítima". não gosto das "prima donna". gosto de obras prima. gosto do natal. gosto de cadeiras. gosto de casas. gosto de chaises longue. não gosto de gel de duche. não gosto de anéis. não gosto de cintos. não gosto de collants. gosto de conduzir. gosto de brincos. gosto de vestidos. gosto de casacos. gosto de saltos altos. gosto de esfoliantes. gosto de sabonetes.
Domingo, 1 de Janeiro de 2012
Urbi et Orbi por Pessoa
VIII
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
O Guardador de Rebanhos (trecho)
Alberto Caeiro
Sábado, 31 de Dezembro de 2011
Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
As Palavras
A árvore das palavras. mundopessoa.blogs.sapo.pt
(...)
as palavras identificam-se com (...) a espessura azul das árvores acesas pelos faróis
o rumor verde
(...)
Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos
e há palavras como giestas vivas.
(...)
As plavras são por vezes um clarão no dia calcinado.
(...)
António Ramos Rosa.
haikai
I.
Sob a névoa da manhã
a teia de aranha
filigrana de prata.
II.
No inverno
azul anil no céu
branco arminho na terra.
III.
É primavera
madrugada dentro
poesia de pássaros.
PM
Sob a névoa da manhã
a teia de aranha
filigrana de prata.
II.
No inverno
azul anil no céu
branco arminho na terra.
III.
É primavera
madrugada dentro
poesia de pássaros.
PM
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
A mulher que passa
Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
Domingo, 25 de Dezembro de 2011
Natal
Neste caminho cortado
Entre pureza e pecado
Que chamo vida,
Nesta vertigem de altura
Que me absorve e depura
De tanta queda caída,
É que Tu nasces ainda
Como nasceste
Do ventre da Tua mãe.
Bendita a Tua candura.
Bendita a minha também.
Mas se me perco e Te perco,
Quando me afogo no esterco
Do meu destino cumprido,
À hora em que Te rejeito
E sangra e dói no Teu peito
A chaga de eu ter esquecido,
É que Tu jazes por mim
Como jazeste
No colo da Tua mãe.
Bendita a Tua amargura
Bendita a minha também.
(Reinaldo Ferreira)
Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011
talvez mais tarde amanheça
A tarde chegou cinzenta e parda e trazia no vento torvelinhos de desgraça.
Os velhos avisados de outras tardes aconselhavam os novos a guardarem-se.
E as mulheres a esconderem-se.
O infinito entrançado do nevoeiro lançava o mesmo aviso lamuriento e gélido.
O vento esticava o nevoeiro em tiras longas como fiapos de pano.
E estes formavam imagens de fantasmas suspensos no vazio.
Não havia casas, árvores, rios ou estrelas.
Tudo estava camuflado naquele imenso aperto de cinzento.
A vida suspendeu-se.
A esta hora chega a noite e a tarde confunde-se com ela.
Talvez mais tarde amanheça….
P.M.
Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011
arrumado em todos os aspectos...
Nada fazia prever - principalmente porque Pegeen Mike Stapleford vivia como lésbica desde os vinte e três anos - que quando ela tivesse quarenta anos e Axler sessenta e cinco se tornassem amantes que se telefonariam todas as manhãs ao acordar e sofregamente passariam juntos o tempo livre em casa dele, onde, para gáudio dele, ela se apropriou de dois compartimentos para seu uso, um dos três quartos de dormir no primeiro andar para as roupas e o escritório do rés-do-chão, ao lado da sala de estar, para o portátil. Havia lareiras em todos os compartimentos do rés-do-chão, mesmo na cozinha, e quando Pegeen estava a trabalhar no escritório tinha sempre a lareira acesa. Vivia a pouco mais de uma hora de distância dali, percorrendo estradas de montanha sinuosas e onduladas, por entre campos de cultivo, que a traziam até à propriedade dele, vinte e dois hectares de campo aberto e uma grande e antiga casa de campo branca com portadas pretas, emoldurada por plátanos antigos e grandes freixos, e muros altos de pedra tosca. Não vivia ninguém, além deles, nas redondezas. Durante os primeiros meses raramente saíam da cama antes do meio-dia. Não conseguiam estar um sem o outro.
E no entanto, antes de ela chegar, ele tinha a certeza de estar acabado: acabado para o teatro, acabado para as mulheres, para as pessoas, definitivamente acabado para a felicidade. Estava há mais de um ano com graves problemas físicos, mal conseguindo dar dois passos ou estar muito tempo de pé ou sentado, por causa das dores da coluna que tinha conseguido suportar durante toda a idade adulta mas cuja evolução debilitante se tinha acelerado com a idade - e portanto tinha a certeza de que estava arrumado em todos os aspectos.
Philip Roth, A Humilhação, Ed. Dom Quixote, 2011
Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011
para a mãe, hoje
- Quem és tu? perguntou o principezinho.
Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.
Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer cativar ?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.
Significa criar laços...
Antoine de Saint-Exupéry
Domingo, 27 de Novembro de 2011
Ilha dourada
A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio
As gentes calam na
voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da "Amizade"
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento
RUI KNOFLI
Terça-feira, 8 de Novembro de 2011
secreto como uma cumplicidade...
"No seu aspecto mais profundo o meu conhecimento de mim próprio é obscuro, interior, inexpresso, secreto como uma cumplicidade. No seu aspecto mais impessoal, tão gelado como as teorias que eu possa elaborar acerca de números: emprego o que tenho de inteligência para ver de longe e de mais alto a minha vida, que se torna então a vida de um outro"
Marguerite Yourcenar in Memórias de Adriano, pag. 25, Editora Ulisseia, 1988
Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011
ardem laranjas de ouro...
Conheces o país onde floresce o limoeiro?
Por entre a rama escura ardem laranjas de ouro,
Do céu azul sopra um arzinho ligeiro,
Eis se ergue a murta calma, olha o altivo louro!
Conheces?
J.W. Goethe (1749-1832)
Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011
hoje eu completei...
Hoje eu completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com
palavras. Minha mãe gostou. É assim:
De noite o silêncio estica os lírios.
Manoel de Barros
Sábado, 29 de Outubro de 2011
as árvores
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.
Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.
Tomas Tranströmer
...as árvores desassossegadas como em toda a parte...
com a chegada da noite...
o meu marido...
a largar as chaves na mesinha de laca sem atenção ao verniz,
o desassossego das árvores na voz dele,
um agitar de folhas, a mesma angústia nos ramos...
António Lobo Antunes
Eu Hei-de Amar Uma Pedra
Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
Fogo preso
Quando se ateia em nós um fogo preso,
O corpo a corpo em que ele vai girando
Faz o meu corpo arder no teu aceso
E nos calcina e assim nos vai matando
Essa luz repentina até perder alento,
E então é quando
A sombra se ilumina,
E é tudo esquecimento, tão violento e brando.
Sacode a luz o nosso ser surpreso
E devastados nós vamos a seu mando,
Nessa prisão o mundo perde o peso
E em fogo preso à noite as chamas vão pairando
E vão-se libertando
Fogo e contentamento,
A revoar num bando
De beijos tão sem tento
Que não sabemos quando
São fogo, ou água, ou vento
A revoar num bando
De beijos tão sem tento,
Que perdem o comando
Do próprio esquecimento
Vasco Graça Moura
Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011
vento sem abrigo
Sunshine lovers II - Elisabete da Silva
Quando todos apagam a luz
E quem possui um abrigo
Fecha a janela e vai dormir.
Ao meio-dia, como deve sentir-se imponente o vento
Ao pisar em incorpórea música,
Corrigindo erros do firmamento
E limpando a cena.
Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento
Ao deter-se em mil auroras,
Desposando cada uma, rejeitando todas
E voando para seu esguio templo, depois.
Emily Dickinson
In Poemas Escolhidos
Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
encontrar-me...
«A partir de hoje, se alguém me quiser encontrar, procure-me entre o riso e a paixão.»
Natália Correia
A noiva sitiada
Para a igreja vos arranca
um animado e ruidoso murmurar.
na ordenada ala o sol se entorna.
Os olhares que sitiam a noiva
apalpam como mãos suas ancas seus seios.
Como a roupa de dentro colada à sua pele
cercam-na bloqueiam toda a possível greta
levantam-lhe a camisa
como se atormentando
ou lhe solicitando a escondida
fenda.
Fernando Pessoa.
Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011
Um melro construido de memória.
O amarelo do bico tráz a plumagem negra,
azeviche
azeviche
Já não se diz azeviche
Dizia o meu avô, se não o dissesse o melro não ficava completo
Dizia o meu avô, se não o dissesse o melro não ficava completo
Azeviche, Substância mineral muito negra e luzidia
O melro, os olhos redondos e vigilantes
Dentro do olho um homem com uma espingarda
O melro, os olhos redondos e vigilantes
Dentro do olho um homem com uma espingarda
E no ouvido um som seco
Um estoiro-eco que faz as pernas nervosas,
aos saltos
Um estoiro-eco que faz as pernas nervosas,
aos saltos
O melro a agir como se me roubasse as amoras
Sem ter meio de entender que a amoreira plantei-a para ele lá ir comê-las
No pretexto do seu amarelo e azeviche
E de ouvi-lo
A sua glória. Onde luta pelo direito de Mozart na flauta mágica.
A sua glória. Onde luta pelo direito de Mozart na flauta mágica.
E ele vê-me e voa, noutra glória
Sou a dona das amoras
Pareço-lhe o homem no fundo do seu olho
Pareço-lhe o homem no fundo do seu olho
Eu, o melro e o azeviche, quantos mal-entendidos!
PM
Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011
Poema de amor sem ser
Queria um poema de amor.
Mas não tenho as palavras.
Amor não serve
está em estado de roto
com muito rosa e purpurina.
Amor é uma palavra confundida
serve para docinho, filha e abobrinha.
Eu quero palavras como pedras
sal selvagem
grito de vento
silêncio de montanha
desejo que é dor
paixão que adoece....
PM
PM
O ar que respiras
Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar,
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que tu respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Sophia de M.B.A.
Par ser grande.
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe
quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis.
Etiquetas:
Homenagem aos filhos.
Quarta-feira, 20 de Julho de 2011
O nevoeiro
Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
Espero, Sophia de Mello Breyner Andresen
Terça-feira, 12 de Julho de 2011
A garça
Certas palavras têm ardimentos; outras, não.
A palavra jacaré fere a voz.
É como descer arranhado pelas escarpas de um
serrote.
É nome com verdasco de lodo no couro.
Além disso é agríope (que tem olho medonho).
Já a palavra garça tem para nós um
sombreamento de silêncios...
E o azul seleciona ela!
Manoel de Barros.
Domingo, 5 de Junho de 2011
Sábado, 4 de Junho de 2011
Es Ser
Ele não fala. Quer dizer, não fala a mesma linguagem que os homens. Mas Lalla ouve a voz dele no interior dos seus ouvidos, e ele diz com a sua linguagem coisas muito belas que lhe perturbam o interior do seu corpo, que a fazem arrepiar-se. Talvez ele fale com o ruído ligeiro do vento que vem do fundo do espaço, ou então com o silêncio entre cada sopro de vento. Talvez fale com as palavras da luz, com as palavras que explodem em chuva de faíscas, sobre as lâminas das pedras, as palavras da areia, as palavras dos calhaus que se esboroam em pó duro, e também as palavras dos escorpiões e das serpentes que deixam os seus rastos ligeiros na poeira. Ele sabe falar com todas essas palavras e o olhar salta de uma pedra para a outra, vivo como um animal, vai num ápice até ao horizonte, sobe a direito no céu, plana mais alto que as aves.
Lalla gosta de vir aqui, ao planalto de pedra branca, para ouvir essas palavras secretas. Ela não conhece aquele a quem chama Es Ser, não sabe quem ele é, nem de onde vem, mas gosta de o encontrar naquele lugar, porque ele traz consigo, no seu olhar e na sua linguagem, o calor das terras de dunas e de areia, das regiões sem árvores e sem água.
Mesmo quando Es Ser não vem, é como se ela pudesse ver com o olhar dele. É difícil de compreender, porque é um pouco como num sonho, como se Lalla não fosse inteiramente ela própria, como se tivesse entrado no mundo que está do outro lado do olhar do homem azul.
Então aparecem as coisas belas e misteriosas. Coisas que ela nunca viu noutro lugar, que a perturbam e inquietam. Ela vê a extensão de areia cor de oiro e de enxofre, imensa, semelhante ao mar, às grandes ondas imóveis. Nessa extensão de areia, não se avista ninguém, não há uma árvore, uma erva, nada senão a sombra das dunas que se espreguiçam, que se tocam, que formam lagos ao crepúsculo. Aqui, tudo é semelhante, e é como se ela estivesse ao memso tempo aqui, e depois mais longe, lá onde o seu olhar poisa ao acaso, depois ainda noutro lugar, muito próximo do limite entre a terra e o céu. As dunas movem-se sob o seu olhar, lentamente, afastando os seus dedos de areia. Há riachos de oiro que correm no próprio lugar, no fundo dos vales tórridos. Há ondulações duras, cozidas pelo calor terrível do sol, e grandes praias brancas de curvatura perfeita, imóveis perante o mar de areia vermelha. A luz rutila e escorre por toda a parte, a luz que nasce de todos os lados ao mesmo tempo, a luz da terra, do céu e do sol. No céu, não há fim. Apenas a bruma seca que ondula junto do horizonte, quebrando reflexos, dançando como ervas de luz - e a poeira ocre e rosa que vibra no vento frio, que sobe para o centro do céu.
Tudo isso é estranho e longínquo, embora pareça familiar. Lalla vê a sua frente, como com os olhos de um outro, o grande deserto onde a luz resplandece. Sente na pele o bafo do vento do sul, que ergue as nuvens de areia, sente sob os pés nus a areia escaldante das dunas. Sente sobretudo, por cima dela, a imensidade do céu vazio, do céu sem sombra onde brilha o Sol puro.
Então, durante muito tempo, deixa de ser ela própria; torna-se outra pessoa, distante, esquecida. Vê outras formas, silhuetas de crianças, homens, mulheres, cavalos, camelos, rebanhos de cabras; vê a forma de uma cidade, um palácio de pedra e de argila, muralhas de lama de onde saem bandos de guerreiros. Vê isso, pois não é um sonho, mas a recordação de uma outra memória em que ela entrou sem o saber.
J.M.G. Le Clézio
Quinta-feira, 26 de Maio de 2011
Sábado, 21 de Maio de 2011
A janela
foi então nessa noite
que amanhecemos, a nossa
nudez delatada pela cotovia
e a janela a abrir-se
para os primeiros ventos.
Renata Correia Botelho
que amanhecemos, a nossa
nudez delatada pela cotovia
e a janela a abrir-se
para os primeiros ventos.
Renata Correia Botelho
O ninho de melro
Há um ninho de melro no cotoneaster erecto do jardim.
O canto dos melros permanece todo o dia.
Deixo-vos a melodia.
Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
As tuas estradas
Duas estradas separavam-se num bosque amarelo,
Que pena não poder seguir por ambas
Numa só viagem: muito tempo fiquei
Mirando uma até onde enxergava,
Quando se perdia entre os arbustos;
Depois tomei a outra, igualmente bela
E que teria talvez maior apelo,
Pois era relvada e fora de uso;
Embora, na verdade, o trânsito
As tivesse gasto quase o mesmo,
E nessa manhã nas duas houvesse
Folhas que os passos não enegreceram.
Oh, reservei a primeira para outro dia!
Mas sabia como caminhos sucedem a caminhos
E duvidava se alguma vez lá voltaria.
É com um suspiro que agora conto isto,
Tanto, tanto tempo já passado;
Duas estradas separavam-se num bosque e eu -
Eu segui pela menos viajada
E isso fez toda a diferença.
Robert Frost (1874-1963)
Terça-feira, 10 de Maio de 2011
Inscrição para uma cabana
O caminho dos simples coberto de musgo vermelho
A janela na montanha abrindo para o azul
Invejo-te o vinho que bebes entre as flores
e todas essas borboletas que voam nos teus sonhos.
Tsian Ki (722-780)
Trad.: Jorge de Sousa Braga
vós que viveis tranquilos
Se isto é um homem
Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos virem a cara.
(No fundo
A viagem não durou mais de vinte minutos.
Depois o camião parou,
viu-se uma grande porta, encimada por uma palavras fortemente iluminadas
(a lembrança destas palavras ainda me assalta nos sonhos).
ARBEIT MACHT FREI, o trabalho liberta.
Primo Levi.
Se Isto é um Homem
Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos virem a cara.
(No fundo
A viagem não durou mais de vinte minutos.
Depois o camião parou,
viu-se uma grande porta, encimada por uma palavras fortemente iluminadas
(a lembrança destas palavras ainda me assalta nos sonhos).
ARBEIT MACHT FREI, o trabalho liberta.
Primo Levi.
Se Isto é um Homem
Domingo, 8 de Maio de 2011
Parabéns (para o Pi que faz hoje 18 anos)
Tudo o que o meu pai me disse quando, aos 15 anos,
declarei em família que iria começar a escrever poesia
"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
essas mãos."
Luís Filipe Parrado
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acontecimentos extraordinários
Sábado, 7 de Maio de 2011
A lei do pão
A Katharina Seidel, A Kati-Plantão, veio de Bakowa, no Banat. Ou Alguém da sua aldeia pagou para ser tirado da lista e um estafermo a meteu lá para preencher a lacuna. Ou o estafermo era sádico e ela já estava na lista desde o início. Era deficiente mental desde a nascença e durante cinco anos não fez ideia nenhuma de onde estava.(...)
Uma noite, o acordeonista Konrad Fonn fez uma troca com a Kati-Plantão. A Kati deu-lhe o pão que era dela, mas ele pôs-lhe na mão um pedacinho quadrado de madeira. Ela deu-lhe uma dentada, ficou estupefacta e engoliu em seco. À parte o acordeonista, ninguém se riu. E o Karli Halmen tirou a tabuinha à Kati-Plantão e mergulhou-a na sopa de ervas do acordeonista. E à Kati-Plantão devolveu-lhe o pão que era dela.
Na armadilha do pão todos caem. Mas ninguém está autorizado a fazer do pão do rosto da Kati-Plantão o seu próprio. Esta lei faz igualmente parte do tribunal do pão. No campo de trabalho, aprendemos a remover os despojos dos mortos sem um arrepio de horror. Despimo-los antes que fiquem rígidos. Precisamos das roupas deles para não morrer de frio. E comemos o pão que pouparam. Após o último suspiro, a morte deles é o nosso ganho. Mas a Kati-Plantão está viva, mesmo que não saiba onde está. Sabemo-lo e tratamo-la como à nossa propriedade. Nela podemos reparar o mal que fazemos aos outros. Enquanto ela viver connosco, está assente que somos capazes de muita coisa, mas não de tudo. Esta circunstância conta provavelmente mais do que a própria Kati-Plantão.
Tudo o que eu tenho trago comigo
Herta Müller (Prémio Nobel da Literatura de 2009)
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Para não esquecer o séc. XX.
Sexta-feira, 6 de Maio de 2011
Carta à Amada
Sou mais alto do que a palmeira,
porque os meus olhos chegam às palmas,
chegam às aves voando por cima das palmas.
Sou mais longo que um rio,
porque ouço o longínquo rumor do mar
ou fechando os olhos vejo o fulgor das praias.
Sou mais poderoso do que uma leoa,
porque a minha dor escrita chega mais longe que o seu rugido,
chega às mãos da minha amada, a dor escrita,
chega mais longe que o rugido,
a dor escrita chega às mãos da minha amada.
América central, Misquitos
Versão: Herberto Helder.
porque os meus olhos chegam às palmas,
chegam às aves voando por cima das palmas.
Sou mais longo que um rio,
porque ouço o longínquo rumor do mar
ou fechando os olhos vejo o fulgor das praias.
Sou mais poderoso do que uma leoa,
porque a minha dor escrita chega mais longe que o seu rugido,
chega às mãos da minha amada, a dor escrita,
chega mais longe que o rugido,
a dor escrita chega às mãos da minha amada.
América central, Misquitos
Versão: Herberto Helder.
Quarta-feira, 4 de Maio de 2011
pelo amor e pelo canto
Nã sei bem de que cor é a cor do amaranto.
Mas pelo amor e pelo canto fica bem esse
amaranto aí (melhor do que se eu usasse
perpétua, que é outro nome que se põe a essa
flor) .
Amaranto murmura melhor.
Manoel de Barros.
O cheiro do vento
" No fim tu hás de ver que as coisas mais leves
são as únicas que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."
Mário Quintana
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