domingo, 22 de Novembro de 2009

Grito de Socorro

Em mim há sempre
despedida:
Como alguém que se afoga
e com roupas
pesadas da água do mar
oferece o seu último amor
a uma pequena nuvem.

Hilde Domin, in antologia Estende a mão ao milagre, Cosmorama, Edições.

sábado, 21 de Novembro de 2009

Protego

Grandes poemas para viagens pequenas.

Retirado do blog do João Negreiros

hora da alegria


Ainda não é hora da alegria se levantar antes de mim...

do sol entrar no quarto

surripiar a alegria

irem os dois para o jardim

espalhar tinta nas flores

cuidar dos ninhos dos pássaros!


É Novembro...

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Assim ele se Ilumine



Um homem parte
Madrugada fora
Rumo à Cidade.

Leva os pés em botas pesadas
E as costas numa trouxa em monge.

O caminho que atravessa a distância
Arrasta-se
Sombrio e penoso.

Súbito
Ilumina-se o homem
Pelo sol que se levanta
Nas franjas da madrugada.
Cada raio de sol que se acende
É uma cor que pinta a caminhada.

Animado pelas cores do sol levante
O homem não atravessa as colinas da paisagem.
O caminho faz-se pintura de Van Gogh
Em rectângulos de tulipas regulares.

Caminha agora
O homem
Por etapas de tulipas
De cores ordenadas.
E se a chuva vier
O homem há-de caminhar pelos caminhos tulipas
E por dentro das cores arco-íris.

Assim ele se ilumine…
Pintura de Van Gogh Campo de Bolbos

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Dia Mundial da Filosofia

Não existe «a» filosofia, mas «as» filosofias e sobretudo o filosofar: "a filosofia não é um longo rio tranquilo onde cada um pode pescar a sua verdade. É um mar no qual mil ondas se confrontam, onde mil correntes se opõem, se encontram, às vezes se misturam, separam-se, e voltam a encontrar-se, opondo-se de novo... Cada um navega como pode e é isso a que chamamos filosofar." Há uma perspectiva filosófica (..) mas felizmente é multifacetada.

Fernando Savater - As Perguntas da Vida, ed. Dom Quixote, Lisboa, 3.ª edição

Pietá

Pietá, escultura de Michelangelo(1475-1564)


"Agora completou-se o meu sofrimento e inominavelmente
dele estou repleta. Fico imóvel como o interior
da pedra fica imóvel.
Dura como estou, uma coisa apenas sei na minha dor:
Tu cresceste
e cresceste,
para te elevares
como dor desmedida
muito para lá da medida do meu coração.
Agora jazes atravessado no meu colo,
agora já não Te posso
dar à luz."

Rainer Maria Rilke, in A vida de Maria.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Plantar sonhos




Nada tem mais importância do que plantar os nossos sonhos e deixá-los crescer.

Casa de Juízo

(...)
E pela terceira vez Deus abriu o Livro da Vida do Homem. E Deus disse ao Homem: " Má foi a tua vida, e com o mal pagaste o bom e com maldade a doçura. Às mãos que te alimentaram feriste e aos seios que te amamentaram desprezaste. O que veio para ti com água foi de ti sedento e aos homens banidos que te esconderam de noite nas suas tendas traíste tu antes da madrugada. Ao teu inimigo que te poupou [apanhaste] numa emboscada, e ao amigo que andava contigo vendeste por um preço e aos que te trouxeram Amor deste em troca luxúria."
E o Homem respondeu e disse: "Tudo isso eu fiz."
E Deus fechou o Livro da Vida do Homem e dissse: " Por certo que te mandarei para o Inferno. Mesmo para o inferno te mandarei."
E o Homem gritou: "Não podes."
E Deus disse ao Homem: "Por que não te posso eu mandar para o Inferno, e por que razão?"
"Porque no Inferno tenho eu sempre vivido" respondeu o Homem.
E houve silêncio na Casa de Juízo.
E depois de um tempo Deus falou e disse ao Homem: Visto que não te posso mandar para o Inferno, por certo te mandarei para o Céu. Mesmo para o Céu te mandarei."
E o Homem clamou: " Não podes."
E Deus disse ao Homem: " Por que não te poderei eu mandar para o Céu, e por que razão?"
"Porque nunca e em nenhum lugar pude imaginá-lo" respondeu o Homem.
E houve silêncio na casa de Juízo.


excerto de poema em prosa de Oscar Wilde, traduzido por Fernando Pessoa e publicado na revista Egoísta, Número especial de Junho de 2008, dedicado a Fernando Pessoa.

Retribuir


Gosto de retribuir o sorriso e tenho pena de não poder sempre retribuir a luz do olhar.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Engenho de café ou cacau

Chove!
Chove...
Nada posso imaginar sobre esta chuva de Outono, que não me cause dor.
Gosto das folhas secas do Outono a dançar no vento e das saias das mulheres a esconderem-se dele...
Com esta chuva nem dança de folhas nem bailado de saias.
Se fosse uma chuva de Verão, que refresca a terra, que liberta aromas de amor apressado, que fortalece as árvores sedentas, vinha mesmo a calhar.
Mas... se é chuva que eu tenho, e se é em chuva que eu penso, o que me falta é o engenho para saboreá-la.
Chuva de Verão é refresco de limão, com aroma de café, num dia quente.
Se eu me libertar do nevoeiro, das folhas secas e do casaco, talvez possa saborear o limão e cheirar o café.
Estou à lareira, acendi a minha fogueira, vou fazer uma tisana de limão e torrar café.
Talvez lá fora esteja a cair chuva quente... o nevoeiro está cada vez mais claro!
Chove!
É hora de desfrutar o sabor do limão, o aroma do café e o exótico paladar de um chocolate quente acabado de inventar.

domingo, 15 de Novembro de 2009

O Silêncio


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

Balada de Outono



Agora, que o Outono já nos convida a trazer um sol interior a aquecer-nos a alma.
Agora, que as nossas casas necessitam do fogo intenso de uma lareira para esquecerem a escuridão.
Agora, é preciso cantar!
E nunca, mas nunca, deixar as ribeiras chorar

Nem os olhos entristecer...

sábado, 14 de Novembro de 2009

As cores, as flores, os alimentos, os fungos do Outono


A mesa das aves


O Ácer tijolo


A estrelícia




O Amarelo Ginko Biloba


O Amarelo Liriodendrum


O Roxo Liquidambar


O Vermelho Ácer


O Rubro Ácer


A Lua em fuga para o dia


A noite agrafada de luz

Sei que a ternura

Sei que a ternura
Não é coisa que se peça,
E dar-se não significa

Que alguém a queira ou mereça.
Estas verdades,
Que são do senso comum,
Não me dão conformação
Nem sentimento nenhum
De haver força e dignidade
Na minha sabedoria...
Eu preferia
- Sinceramente, preferia! -
Que, contra as leis recolhidas
No que ficou dos destroços
De outras vidas,
Tu me desses a ternura que te peço;
Ou que, por fim, reparasses
Que a mereço.


Reinaldo Ferreira, In Livro IV- Dispersos

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Maria e Salomé

Maria.
-Dizes-me tu, Salomé, o que é um amor impossível?
Salomé.
- Não posso dizer-te nada sobre amores impossíveis,
Nunca vivi nenhum. Vivi amores de minutos, de horas, de dias,
e de anos. Nunca nenhum impossível.
Todos eles tiveram, o seu início,
o seu clímax e o seu fim.
Maria.
- Vês as coisas de forma muito prosaica.
Esses amores de minutos, de horas ou de dias,
porque não tiveram continuidade?
Salomé.
- Ninguém os quis agarrar.
Não tinham suficiente alarme, emergência, estado de sítio,
recolher obrigatório, paixão, rebelião, fogo, sentido,
desespero, loucura, para ultrapassarem o tempo exacto que duraram.
Maria.
- Procurei nos livros. Visionei nos filmes. Sondei os amigos.
Falei comigo a sós, mas nada descobri.
Salomé.
- Mas, e o que soubeste, de toda essa busca?
Maria.
- Uns diseram-me que um amor impossível é o que não tem futuro.
Outros, que é aquele que encontra tantos encolhos,
que os amantes dele desistem.
Outros contaram histórias de amores
sem maçãs, nem laranjas, nem pão, nem cores,
que nasceram e morreram em vão.
Salomé.
- Ficaste com respostas?
Maria.
- Não. Mas... procurava a escada do vento e o rastilho do fogo!
Salomé.
- Sim, vejo! Eu penso que não há "amores impossíveis".
O amor cresce com a força com que agarramos,
o que temos e o que nos damos
e com o modo com que nos bastamos e respeitamos.
Cada amor é a união da força solar primitiva
que converge de duas pessoas e é também
a circunstância de nele conviverem essas pessoas
irremediavelmente distintas e sós.
Maria.
- Queres tu dizer que o amor se constrói todos os dias?
Como algo que nunca está perfeito?
Como um caminho, a que não se conhece o rumo?
Salomé.
- O amor é exactamente como o caminho. Faz-se caminhando.
Maria.
- Estou no princípio de um caminho.
Alevantada por um vendaval de loucura.
E a única certeza que tenho
é a da convergência das forças repelentes,
que me acabaste de mostrar.

Desconstruções # 17 "a girafa"


A girafa é uma cerca ambulante com mais de 2 metros de altura.

Pintura na Areia



Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro - teus olhos,
areia vermelha - a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.

Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.

E, como sempre, na areia
Nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.

Herberto Helder, in Poesia Toda.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Noites # 2 "solitárias"


Muitas vezes, durante as nossas ausências, encontrei as nossas almas a brincarem juntas, nos lugares onde dormi sozinha.
Talvez, por isso, nunca poderei esquecer-te.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

ventania no infinito

Desperta no meio da noite, uma violeta de luz suspende-se na eternidade.
A névoa que em si contém é como uma ventania que pode abrir-se, a qualquer momento, ao infinito.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Noites # 1 "silenciosas"


Podia falar-te sobre as noites mais silenciosas.
Aquelas em que a surpresa nos uniu as bocas e impediu as palavras de sairem.
As noites em que nos surpreendemos fogo e espanto no lugar da ausência...

sábado, 7 de Novembro de 2009

A Meu Favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça

A meu favor tenho uma rua em transe
Um alto incêndio em nome de nós todos.

Alexandre O'Neill (1924-1986)

Sombra ou Vento


Muito estranho sempre me pareceu
Os homens adorarem um deus.
E a vida a esse deus dedicarem
E diante dele se curvarem.
Que os deuses são feitos por dentro
Da matéria da sombra ou do vento.

Yüan Mei (1716-1797) China, in Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro

Barca Bela


Pescador da barca bela
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pesacador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!

Almeida Garrett (1799-1854), in Rosa do Mundo 2001 poemas para o futuro.

Memória...

«...Não há amor imediato; o desejo transtorna a verdade, cai como chuva sobre o sangue, dissolvendo-lhe o tempo de onde vem e o espaço para onde vai. Não se consegue amar completamente senão na memória, Sebastião. As histórias que sonhámos para as pessoas amadas flutuam na neblina dos dias muito quentes, como mentiras leves tocadas pelo peso da verdade. Espuma do mar desfeita ao toque dos dedos. Não te canses a inventar-me no desejo do teu corpo, Sebastião, que o que em mim crês amar não é mais do que a memória das lágrimas, das tuas lágrimas, feitas de uma luz distinta das minhas.»

Inês Pedrosa, in "A Eternidade E O Desejo", pag. 59.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

arte


"Toda arte é uma revolta contra o destino do homem".

André Malraux (3.11.1901-23.11.1976).

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

uma visão da morte.

A morte é o mais impressionante dos acontecimentos que nos é dado observar.
As pessoas que acabam de morrer ficam, de um momento para o outro, num autismo absoluto.
Num estado de absoluta parilisia e incomunicabilidade físicas e psíquicas.
Querem os vivos, seus entes queridos, dizer-lhes a última palavra e o morto já não ouve.
Querem perguntar-lhe como foi a sua morte, ou inteirar-se do seu ser e estar do lado de lá da vida, e não há resposta alguma.
Para os vivos, os mortos além de terem espelhada uma absoluta serenidade, têm um ar de descanso e de desapego absolutamente fascinantes.
E não compreendendo, os vivos, como tal é possível, ficam a ensimesmar na injustiça que é o morto estar ali fresco, descansado, sereno e não repartir com eles o segredo de tão mágica transformação.

Anjo


Disseste-me palavras tão sumidas
Como as estrelas pelo nevoeiro.
Se eu fosse o vento
Ou um tiro certeiro...
E, contudo, eu preciso de chegar
E tornar-me
(Para além da folhagem deste carme)
Qualquer coisa com asas e sem medo;
De contrário, o fracasso
Do meu cavalo atordoará o espaço
e o seu aumento aumentará o segredo.
Sabes, anjo, o que eu quero
Ao menos?
Não é fazer dos poços oceanos:
É uma luzinha que me faça amar
A luz que não acaba de estoirar.

António Cabral, In o mar e as águias

sábado, 31 de Outubro de 2009

Profecia de Ilusões # 13 "Neve"


A neve é a chuva vestida de noiva.

Desconstruções #16 "a borboleta"


A borboleta é um insecto que sofre de dupla personalidade.

Profecia de Ilusões # 12 "aniversário"



O dia de Aniversário passa por dentro dos caules das flores e tráz-nos recordações de tenras idades.

Treze Maneiras de Olhar um Melro


1
No meio de vinte montanhas nevadas
A única coisa que se mexia
Era o olho do melro.

2
Eu via as coisas de três maneiras diferentes,
Como uma árvore
Onde há três melros.

3
O melro rodopiava ao sabor dos ventos de Outono.
Era uma pequena parte da pantomima.

4
Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.

5
Não sei qual prefiro,
A beleza das modulações de som
Ou a beleza das insinuações,
O melro a assobiar
Ou logo após.

6
Gotículas geladas cobriam a grande janela
De vidros toscos.
A sombra do melro
Cruzava-a, dum lado para o outro.
O estado de espírito
Desenhava na sombra
Uma causa indecifrável.

7
Ó homens esguios de Haddam
Por que pensais em pássaros dourados?
Não vedes como o melro
Caminha à volta dos pés
Das mulheres perto de vós?

8
Sei de sotaques notáveis
E ritmos lúcidos e inevitáveis;
Mas também sei
Que o melro está presente
Em tudo o que eu sei.

9
Quando o melro voou para fora do alcance da vista
Assinalou a orla
De um de muitos círculos.

10
Perante a visão de melros
Voando envolvidos numa luz verde,
Até os proxenetas da eufonia
Haviam de gritar com vivacidade.

11
Ele foi até Connecticut
Num coche de vidro.
Uma vez, foi tomado de pânico
Quando confundiu
A sombra da carruagem
Com melros.

12
O rio corre.
O melro deve andar a voar.

13
Anoitecia em cada instante da tarde.
Nevava
E ia continuar a nevar.
E o melro empoleirado
Nos ramos dos cedros.


Wallace Stevens (1879-1955), in SIMÕES, António, Antologia de Poesia Anglo-Americana, de Chaucer a Dylan Thomas, Porto, Campo das Letras, 2002, p.409-413

Treze Maneiras de (Não) Colher Uma Rosa.


I
Colocam-se as mãos à volta da rosa,
sem lhe tocar,
para lhe roubar a forma,
das pétalas ao pé.

II
Toca-se na rosa com a boca,
até nossos lábios serem pétalas.

III
Aspira-se-lhe o perfume intensamente,
até substituir o sangue
em nossas veias por inteiro.

IV
Fecham-se os olhos,
e, como num sonho,
levamos a rosa para dentro
do nosso coração.

V
Embrulha-se a rosa no nosso olhar,
atada com os fios do vento.

VI
Atrai-se a rosa a um encontro,
num lugar secreto da nossa alma,
e não se deixa mais sair de lá.

VII
Olha-se a rosa fixamente,
e com o fio de aço do nosso olhar,
corta-se-lhe o pé.

VIII
Tira-se todo o jardim à volta da rosa,
para que ela venha até nós,
ferida de solidão.

IX
Captura-se-lhe a chama
quando a sua cor se confunde
com o poente ou o raiar da manhã.

X
Deixa-se que o crepitar da rosa
entre em nossa alma,
misturado com o sussurrar de uma seara.

XI
Faz-se-lhe uma emboscada
quando o vento da tarde
transporta o seu perfume
dum lado para o outro.

XII
Esperamos pacientemente
que se dilua no orvalho que a cobre toda,
e bebemo-la depois,
gota a gota.

XIII
Deixamos a rosa, livre, intacta,
para a podermos colher,
uma e outra vez,
com a avidez dos nossos sentidos.


ANTÓNIO SIMÕES
*Glosa do título de Wallace Stevens,
"Treze Maneiras de Olhar um Melro"

trilho do Amor.


Imagina que eu nunca te toquei
e o campo até ao horizonte possível
explode em violeta e azul, dedos florescem
para as delícias do tacto num vibrátil
orvalho. Imagina
que eu parti e o ar impregnado de mim
queima; ou o horizonte se tornou num duvidoso pousio,
retráctil, sem gosto nem cheiro, apesar de os lagos
a si atraírem o voo predador de fulminantes aves, e o receio
seca a boca. Imagina esse género de pânico:
flores envolvidas ao contrário, tu: solitária, imagina
o Mundo cego. Imagina que me resguardarei
dentro das minhas próprias veias
no esquecimento de tal ausência a brotar
em tons rubros, borbotões sobre ti. O campo
o campo, o campo, o campo...
Agora
imagina sábado) toquei-te
por assim dizer demasiado...excessivamente,
ao nível onde o ventre cristaliza o vidro
do coração, ou abaixo, no preciso
sitio do nome, teu
medieval nome. E despes o género feminino desse elmo,
num gesto descobres o perfume sob
a cota leonina de uma dança, um feitiço, isso, agora
que é um magnífico sábado permanente, imagina
Cintilações de uma vertigem trágica rasgam
o peito à aventura, a horizontes incontornáveis.
Pela margem da cultura a mim chegaste
e agora, bem, agora
é a galhofa de jogar às escondidas, a refeição
doméstica, o vestir, o calçar, fantasia de tantos pequenos nadas,
entradas subterrâneas, saídas de leão
directas à turbulência do astral. Imagina,
amizade me pediste-dou-te a Noite,
o alvor, sua leve frescura, intactas tardes. Agosto
existe
só para consolidar-nos
contra o cerco
de inumeráveis aguas sujas no subúrbio da inteligência.
E tarde é para ter juízo e cedo...ah cedo o medo
nos surpreenderá, de pueril. Eles ignoram
a autêntica demência de como
sábado nos entrou nos ossos e não sai: toco-te, escalda-
ou apenas o motor da ternura
apela a um ritmo menos trepidante? Um amor
que se vai adivinhando e, adivinhando
também, indica o trilho do Amor.


Paulo da Costa Domingos, in Espacio/Espaço escrito (revista de literatura en dos lenguas)

Desconstruções #15 "halloween"


No Halloween as abóboras vestem a morte.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Profecia de ilusões #11 "a agenda"

A Agenda é uma espécie de aranha que, com fios de tinta alheios, prende o presente ao futuro.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Reciclagem #2 "a bola"

Uma bola cheia de sonhos, rolando sobre ilusões..

Desconstruções #14 "lamento da noite"

O pio da coruja é o lamento da noite.

São asas

Foto do meu filho de 10 anos

A praça tem uma estátua de bronze: um homem alto, escuro, mais alto ali que qualquer de nós. Em todo o caso, há semelhanças entre a estátua e quem passa no largo. Tirante as diferenças do trajo, é o mesmo vulto, o mesmo perfil. Dizem que é Luís de Camões. Será. Uma vez por ano põem-lhe ramos de flores aos pés, com um misto de compungimento e pressa, assim como quem vai apresentar pêsames por um morto que não nos é nada. Chamam-lhe Luís de Camões, e está morto. Desde 1580 que está morto, vai fazer quatrocentos anos. Quando os fizer, haverá comemorações especiais, cortejos cívicos, récitas populares ou não, discursos-talvez um banquete. Mas o velho Luís Vaz, a quem por más acções chamaram Trinca-Fortes, continuará morto.
Este homem, no fundo, não é nosso parente. porque o parentesco não tem nada que ver com o lugar do nascimento e os laços de família. Parente, irmão, é carne e sangue, espírito e comunhão de espírito. E que comunhão existirá entre nós que passamos no largo e o poeta sobre quem o tempo passa e repassa? A sua voz está trancada nos lábios de bronze. Os ecos dessa voz, que ressoam de verso em verso, como entre montanhas que se falam e respondem, não chegam aos duros ouvidos deste tempo. A hora não vai para poetas, mesmo se os imortalizaram em bronze. A estátua é uma justificação, o remorso de um desamor.
Estas vozes, poderosas ou débeis, estas vozes de poetas que vão acompanhando o correr dos dias, plantando ao lado das estradas flores e árvores de flores - como é possível pensar que uma figura de mármore ou de bronze, ou, mais modestamente, uma lápide à esquina da rua, lhes dará corpo e ressonância?
Bem sabemos que a vida tem exigências imediatas, que é difícil a alguém, de cada vez que ali passa, dizer com os seus outros pensamentos: «É Luís de Camões, meu irmão reconhecido e amado .» Não é possível aguentar isto de descer ou subir a rua e levar na alma alguma coisa daquela alma heróica. (Heróica, porquê? Mas deixemos ficar o lugar comum.) A nossa vida breve, acomodada até nas negações, não suportaria o bafo vibrante daquele fogo que ali arde invisivelmente. Aqui viriam a propósito os pombos, seria altura de dizer que Luís de Camões está coroado de asas, e até, com um pequeno esforço, que nessas mesmas asas delegámos a nossa veneração e o nosso amor. Coitados dos pombos. Coitados de nós.
Daqui por um ano, terás mais flores aos pés. Daqui por um ano (e que é um ano para ti?), não sei se voltarei a dizer-te estas coisas ou outras coisas. Pouco importa, afinal. As palavras não dizem tudo quanto é preciso. Diriam mais, talvez, se fossem asas. Delego também nos pombos a tua coroação. E vou à minha vida, Luís de Camões, com muita pena de não levar a tua. Até para o ano, irmão. Até para o ano. Tem paciência e espera. Há em Portugal cerca de dez milhões de habitantes. Ainda tens muitas probabilidades.


FIM


José Saramago Deste Mundo e do Outro, jornal A Capital, 1968/69.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Desconstruções #13 "caixa de pandora"


O beijo é a caixa de pandora do amor.