sábado, 23 de Janeiro de 2010

Recortar a lua


Se chegar tarde
não me esperes com palavras
podem formar pensamentos
com arestas vivas e cruas.

Se na espera
imaginares
o sorriso da minha alma
talvez te lembres de fazer a cama
de azul mar
com pétalas de rosa
e espigas de arroz.

Quando eu entrar
na cama
saberei que me esperaste
com a alma que é gémea da minha.

E, não direi uma palavra
antes de para ti recortar a lua
de um céu vermelho...

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Sair


Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

Antonio Cicero
A Cidade e os Livros
V.N.Famalicão: Quase, 2006

(If) Se


Se podes conservar o bom senso e a calma
Num mundo a delirar, para quem o louco és tu.
Se podes crer em ti com toda a força da alma
Quando ninguém te crê. Se vais faminto e nu
Trilhando sem revolta um rumo solitário.
Se à torpe intolerância, se à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão.
Se podes dizer bem de quem te calunia,
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
Mas sem a afectação de um santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor.
Se podes esperar sem fatigar a esperança,
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho,
Fazer do pensamento um arco de aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho.
Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores!
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo ao amor dos teus amores.
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu!... jamais lhe deste!
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra e sem um termo agreste
Voltares ao princípio para construir de novo.
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo já afogado em crepúsculos
Só exista a vontade a comandar – Avante!
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre,
Se vivendo entre os reis conservas a humildade
Se inimigo ou amigo, poderoso ou pobre,
São iguais para ti à luz da eternidade.
Se quem conta contigo encontra mais que a conta,
Se podes empregar os sessenta segundos
De cada minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraia em séculos fecundos.
Então, ao ser sublime o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os templos, os espaços,
Mas ainda para além um novo sol rompeu
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te meu filho... Então serás um HOMEM!


Joseph Rudyard Kipling (30-12-1865/18.01.1936)

domingo, 17 de Janeiro de 2010

Páginas excepcionais # 29 "Os que ajudam"


Caro Sandy


Penso que (entre as pessoas) há dois tipos de Filosofias. As pessos que se importam e as que não se importam, as pessoas que fazem e as pessoas que Adiam e nunca fazem ou ajudam.
Cheguei a casa do escritório e não me senti bem, tu e o Phil eram muito pequenos. A mãe fez o jantar. Em vez de me sentar para comer, fui prá sala. Uma hora depois, o Dr. Weiss chegou, a mãe tinha-o chamado. Passou-se o seguinte: ele perguntou-me o que tinha. Eu disse-lhe uma dor no coração, depois de me examinar, ele disse que não encontrara nada que estivesse mal em mim. Perguntou-me o que fazia em excesso. Respondi-lhe a única coisa que me lembrava fumo muito, Que tal reduzir para três em lugar de 24 por dia, Perguntou ele. Eu disse porque não nenhum e ao fim duma semana a minha dor desapareceu Deixei completamente de fumar. A mãe preocupou-se, o Dr. Weiss aconselhou, eu ouvi, Há muitos conselheiros neste mundo, também há pessos que se importam e fazem, e pessoas que escutam, Em muitos casos salvam vidas, e há também os que exageram e abusam, os que fumam de mais e bebem de mais, tomam drogas, e também comem desalmadamente. Em cada um dos casos todas estas coisas podem causar doenças e às vezes ainda pior do que isso.
Tu querias uma casa. Eu arranjei-te logo o dinheiro para a comprares. Porquê? porque me importava. O Phil precisava de uma operação à hérnia, eu levei-o ao médico e ele foi operado. Fiz o mesmo com a mãe depois de ela sofrer durante 27 anos. Porquê porque sou uma pessoa que se importa e que faz. Suponho que os pais dela se importavam, mas eu senti a dor de ambos e fiz, não adiei. Digo ao Jon e malho nele. Uso toda a espécie de lugares-comuns, «Como», um idiota e o seu dinheiro depressa se separam) (Um tostão poupado é um tostão ganho) (qualquer dia, haverá um velho que dependerá de ti.) e quando ele perguntou quem, respondi-lhe que eras tu.)etc Não lhe digo uma vez, continuo a dizer-lho ou a Sarraziná-lo, porquê, porque ele se esquece, como um bebedor viciado, ou um drogado, etc. Porque continuo a sarrazinar? Tenho consciência de que é uma chatice, mas quando se trata de pessoas com quem me importo tento curá-las, mesmo que se oponham ou não se disciplinem... dixiplinem incluindo eu próprio. Travo muitas batalhas com a minha consciência, mas luto contra os meus pensamentos irrados. Importo-me, com as pessoas à minha maneira.
Peço-te que desculpes a ortografia e a caligrafia. Nunca fui bom a escrever, mas agora estou pior, não vejo muito bem.
O Sarrazinador,
Nome errado,
devia ser O Que Se Importa
Abraço

Pai.

Roth Philip
O Património.

sábado, 16 de Janeiro de 2010

a vida e o espelho

Rene-Magritte

Pedi para não permaneceres à janela.

Podia transformar-se numa atitude.
Então ficarias a ver a vida
escapar-se todos os dias
com a luz do sol.

Não acreditaste nessa possibilidade.

Agora, olhando-te da rua
penso que achaste a vida.
Que ela entrou
por todos os poros do teu corpo e
em todas as ficções da tua mente
revolvendo-te em todas as direcções.

Não foi a vida que querias?

Querias uma vida cheia de razões loucas
para viver e
de emoções nunca inventadas
para morrer!

Agora tu acreditas que ficaste à janela.
Eu não.
P.M.

sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

As pétalas negras dos melros


Eu bem te avisei que a vida tinha muitos imprevistos.

As pétalas negras dos melros levantam voo
mesmo no pino do Inverno
quando o nevoeiro lhes esconde o sol do bico

Não me venhas agora dizer que os teus olhos
não ardem de gozo pela vida
quando na tua frente passa o balanço imortal
da mulher recém-nascida

Eu conheço quando os teus pés
levam a graça da dança
os teus olhos o sorriso de mel
e os teus lábios a fogueira do beijo

Eu sei que os teus olhos ardem
e os teus pés têm sempre intenção de regressar

E que a vida só termina
quando a chama ao vento se apagar...

P.M.

quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

A Aldeia Vizinha

O meu avô costumava dizer: «A vida é espantosamente curta. Agora, ao olhar para trás, ela concentra-se em mim de tal maneira que, por exemplo, não consigo compreender como é que uma rapaz novo se decide a ir a cavalo até à aldeia vizinha sem recear - isto, para não falar já de acasos infelizes - que o próprio tempo de uma vida normal e feliz nem de longe chegue para uma tal cavalgada.»
´
Franz Kafka
Parábolas e Fragmentos
Assírio & Alvim

quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

Se eu...


Se eu pudesse regressar
(fazer o caminho uma segunda vez)
trazia comigo uma bagagem
cheia de viagens surpresa

e de separações temporárias
(para atiçar o desejo e a saudade)

Arranjava uma profissão
sem secretária
daquelas onde se escolhem textos
para serem benditos ou malditos
a horas incertas.

E caminhava assim
carregando a vida
como quem quer sempre leve o peito.

(Pegando no fio do A.M.)

segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Páginas excepcionais # 28 "estrelas que escaparam"


"Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa
que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me
a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor."

Maria do Rosário Pedreira
O Canto do Vento nos Ciprestes
Gótica, 2001

domingo, 10 de Janeiro de 2010

Profecia de ilusões * 19 "o pastor"

O pastor destas ovelhas é uma central telefónica.

Desconstruções # 23 "as flores"


A terra criou as flores para ver as estrelas à luz do dia.

Páginas excepcionais # 27 "cada qual o mundo inteiro do outro"


"Na manhã seguinte retomaram a marcha bem cedinho. Estava muito frio. À tarde começou a nevar outra vez e acamparam cedo e agacharam-se por baixo do toldo de oleado e ficaram a ver a neve a tombar na fogueira. Ao amanhecer havia no solo mais uns bons centímetros de neve recente, mas parara de nevar e o silêncio era tão profundo que eles quase conseguiam ouvir os próprios corações. Ele amontoou lenha sobre as brasas e atiçou-as até reavivar as chamas e afastou-se, a caminhar penosamente sobre os montões de neve, para desenterrar o carrinho. Examinou as várias latas e regressou para junto do rapaz e sentaram-se diante da fogueira e comeram as últimas bolachas de água e sal e uma lata de salsichas. Numa bolsa da mochila ele encontrara um pacote de cacau meio cheio, o último que lhes restava, e preparou a bebida para o rapaz e depois encheu a própria caneca de água quente e ficou recostado, a soprar para o bordo.
Prometeste que não fazia isso, disse o rapaz.
O quê?
Tu sabes o quê, papá.
Despejou a água quente para dentro da caçarola e pegou na caneca do rapaz e verteu uma parte do cacau para dentro da sua e depois devolveu-lha.
Tenho de estar sempre de olho em ti, disse o rapaz.
Eu sei.
Quem quebra as pequenas promessas também quebra as grandes. Foi o que tu disseste.
Eu sei. Mas eu não vou fazer isso.

(...)

Entraram na pequena clareira, com o rapaz agarrado à mão dele. Os outros tinham levado tudo, à parte uma massa negra que assava no espeto, por cima das brasas. Ele estava parado, a prescrutar a orla da clareira, quando o rapaz se virou e escondeu o rosto contra si. Ele olhou rapidamente para perceber o que sucedera. O que é ?, perguntou. O que é? O rapaz abanou a cabeça. Oh, papá, disse. Ele virou-se e olhou de novo. O que o rapaz vira era um bebé humano chamuscado, sem cabeça e despojado das vísceras, a tostar no espeto. Ele curvou-se e pegou no rapaz e começou a caminhar para a estrada com ele ao colo, abraçando-o com força. Desculpa, sussurrou. Desculpa.

(...)

Ele viu-o aproximar-se através da erva e pôr-se de joelhos, segurando o copo de água que fora buscar. Um halo de luz rodeava-o por completo. Ele pegou no copo e bebeu e tornou a recostar-se. A única comida que lhes restava era uma lata de pêssegos, mas ele obrigou o rapaz a comer tudo e recusou-se a aceitar uma só dentada. Não sou capaz. disse. Não faz mal.
Eu guardo a tua metade.
Está bem. Guarda metade até amanhã.
O rapaz pegou no copo e afastou-se e, quando se moveu, a luz moveu-se com ele. Quisera fazer uma tenda com o oleado, ou pelo menos tentar, mas o homem recusou. Disse que não queria nada a cobri-lo. Deitado no chão, contemplava o rapaz junto à fogueira. Queria ser capaz de ver. Olha à tua volta, disse. Não há profeta algum na longa crónica da terra que hoje não seja homenageado aqui. Sejam quais forem as imagens que evocaste, tinhas razão."

Cormac Mccarthy
A Estrada
Relógio D'Água

sábado, 9 de Janeiro de 2010

A Pantera


(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um
grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para
morrer no coração.


Rainer Maria Rilke
Trad. Augusto de Campos

sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Paginas excepcionais # 26 "a diversidade"


"O sentimento que me unia a minha mãe, a ti e à Krisztina, era o mesmo: a mesma saudade, a mesma esperança incessante, a mesma vontade impotente e triste. Porque amamos sempre a pessoa «diferente», procuramo-la em todas as situações e variantes da vida... sabes? O maior segredo e a maior dádiva da vida, quando duas pessoas «semelhantes» se encontram. Isso é tão raro, como se a natureza impedisse com força e astúcia essa harmonia - talvez porque para a criação do mundo e para a renovação da vida necessita da tensão que se gera entre as pessoas que se procuram eternamente, mas que têm intenções e ritmos de vida opostos. Sabes, corrente alterna... onde quer que olhes, lá está essa troca de forças positivas e negativas. Quanto desespero, quanta esperança cega existe atrás dessa tal diversidade! Sim, em Arco, ouvi a voz do meu pai e percebi que o seu destino continua em mim, que tenho o mesmo carácter com os mesmos gostos que ele tinha, a minha mãe, tu e a krisztina estão na outra margem, todos têm um papel diferente, a mãe, o amigo, a amante e esposa, todavia todos desempenham o mesmo papel na minha vida. Estão na outra margem, sim, aonde nunca consigo chegar... Podes alcançar tudo na vida, podes vencer tudo à tua volta e no mundo, a vida pode oferecer-te tudo e podes tirar tudo da vida: mas nunca podes mudar os gostos, as inclinações, o ritmo da vida duma pessoa, aquela diferença que caracteriza por completo uma pessoa, a pessoa que é importante para ti, que te interessa. É a primeira vez que sinto isso em Arco, quando a Krisztina dá a volta à casa, onde a mãe morreu."


Sándor Márai
As velas ardem até ao Fim
Dom Quixote

quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

Fios de Ariadne


"Só depois de ter conhecido a superfície das coisas nos podemos aventurar a procurar o que está por baixo. Mas a superfície das coisas é inesgotável."
Italo Calvino, In Palomar

"... Sabes onde o conceito de labirinto apareceu pela primeira vez?
Respondo que não com a cabeça.
- Foi na antiga Mesopotâmia. Extraíam as entranhas dos animais, e de seres humanos também, possivelmente, e baseavam-se na forma que tinham para prever o futuro. Apreciavam a forma complexa dos intestinos. Daí que se pode dizer que o protótipo dos labirintos reside, numa palavara, nos intestinos. O que significa que o princípio que presidiu à invenção do labirinto reside dentro de ti. E isso está de alguma fora relacionado com a noção de labirinto fora de ti.
- Mais uma metáfora - alvitro eu.
- Exactamente. Uma recíproca metáfora. As coisas no exterior são projecções do que tens dentro de ti, e o que tens dentro de ti é uma projecção do que te rodeia. Por isso, quando entras no labirinto exterior que te cerca, estás ao mesmo tempo a penetrar no teu labirinto interior. Uma odisseia perigosa, sem sombra de dúvida."
Haruki Murakami, in Kafka à beira-mar.

"Conheces o nome que te deram,
não conheces o nome que tens"
Livro das Evidências, citado por José Saramago, in Todos os Nomes.

“Travada a mente na ideologia...”
Caetano Veloso

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

Páginas excepcionais # 25 "gafanhotos num campo devastado"

United Press Photo, National Geographic Stock
"Porque tínhamos medo, Edgar, Kurt, Georg e eu andávamos juntos todos os dias. Sentávamo-nos junto à mesa, mas o medo permanecia tão isolado em cada cabeça como o trazíamos antes de nos encontrarmos. Ríamo-nos muito, para escondê-lo dos outros. O medo, porém, escapa-se-nos. Quando dominamos o rosto, esgueira-se pela voz. Quando se consegue conservar o rosto e a voz como um ramo morto, sai até pelos dedos. Deita-se fora da pele. Anda por ali à vontade, reconhecemo-lo nos objectos que estão próximos.
Sabíamos em que lugar estava o medo de quem, porque já nos conhecíamos há muito tempo. Muitas vezes não nos podíamos aturar, porque estávamos dependentes uns dos outros. Tínhamos de nos ofender.
Tu mais a tua cabeça-de-alho-chocho suábia. Tu mais a tua pressa ou molenguice suábia. Tu mais a tua mania suábia de contar os tostões. Mais a tua lorpice suábia. Tu mais os teus soluços ou espirros suábios, mais as tuas peúgas ou camisas suábias, dizíamos.
Seu peida-de-bombo-da-festa suábia, seu cabeça-de-vento suábio, seu kampelsackel suábio. A fúria era tanta que nos servíamos de palavras longas que nos separavam. Inventávamo-las como pragas para ganhar distância em relação uns aos outros. O riso era duro, perfurávamos a dor. Era rápido, porque nos conhecíamos por dentro. Sabíamos exactamente o que magoava o outro. Agradava-nos vê-lo sofrer. Queríamos que sucumbisse sob o peso do amor agreste e que sentisse a rapidez da sua derrota. Cada injúria arrastava a seguinte até que o visado se calava. E ainda um pedaço depois. Durante um pedaço ainda, as palavras caíam-lhe no rosto mudo como gafanhotos num campo devastado.
Imersos no medo, tínhamos olhado mais fundo uns nos outros do que era permitido. A longa confiança obrigava-nos a uma inversão que acontecia inesperadamente. O ódio podia aparecer e destruir. Na grande proximidade uns dos outros, ceifar o amor, porque ele voltava a crescer como a erva alta. As desculpas retiravam a ofensa tão rapidamente como se consegue reter a respiração. A procura do conflito era sempre intencional, as consequências dele é que permaneciam um descuido. Passada a fúria, o amor era pronunicado sem inventar palavras. Estava sempre lá. Mas no conflito o amor tinha garras.

(...).

Todos tínhamos um amigo em cada pedacinho de nuvem
é o que acontece com os amigos onde o mundo é cheio de medos
até a minha mãe dizia que era normalíssimo
os amigos estão fora de questão
pensa em coisas mais sérias
(...)


Queria que Kurt me mostrasse a ferida. Tu e essa tua compaixão suábia de chá de camomila, disse ele. Tu e o teu medo de engraxador de aldeia, disse eu.
Surpreendíamo-nos por ainda conseguirmos inventar expressões más, longas. Mas faltava às palavras o ódio, não conseguiam magoar. Na boca só tínhamos uma compaixão pestanejante. E, em vez da ira, a felicidade embaraçada de que o intelecto tivesse sido bem-sucedido depois de tanto tempo. Sem dizer palavra, não podíamos deixar de nos perguntar se Edgar e Georg, quando voltassem à cidade, ainda estariam suficientemente vivos para magoar.
Kurt e eu rimo-nos pelo quarto dentro, como se tivéssemos de agarrar-nos um ao outro antes de os nossos rostos desatarem, de repente, a tremer como queriam. Antes de qualquer um de nós se preocupar com o controlo do canto da sua boca. Ao rir, olhávamos para a boca do outro. Sabíamos que no momento seguinte ficaríamos tão sós diante dos lábios controlados do outro como quando começassem a tremer.
Depois chegou esse momento: fechei-me no bater do meu coração e tornei-me inalcançável para Kurt. A minha frialdade não se deixava entusiasmar por qualquer palavra má, não conseguia inventar mais nada. Nos meus dedos esta frialdade era capaz de passar à violência. Por baixo da janela passou um chapéu."


Herta Müller (Prémio Nobel 2009)
A terra das Ameixas verdes (Pags. 68 e 69, 71, 111 e 112)
Difel, 2009

Flor

Flor da esteva tirada do blog momentos e olhares

Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis.

A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.


Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.


Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!



Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

José de Almada Negreiros,
A invenção do dia claro (1921).

segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

Atravessar o medo


Candeeiro demente


"Em cada milímetro deste chão está o último instante da minha vida. Posso contemplá-lo a perder de vista. É o motivo por que me transportam sempre de noite. Preservam-me. Não me incomoda. Agora mesmo é de noite e há bastante disso. É de noite sempre que não me encontro quieto. Deixei de estar com o medo porque ele me desertou. Transformou-se num território exterior. Enorme falta de solidariedade: não tenho onde me agarrar, o que pode ser fatal. O chão, a estrada, a savana, o país: o medo é um mapa e a obrigação dele. Não sei quantos dias tem de largura. Estamos a atravessá-lo e é de noite. Atravessar a noite é tudo o que tenho."


Pedro Rosa Mendes
Baía dos Tigres
Publicações Dom Quixote

clareiras de vida


«Na verdade, o que procuro é um espaço para respirar. Que as minhas palavras desenhem uma paisagem aérea, silenciosa, inicial. Dir-se-ia que algo me impede de forçar, de pesar, como se a eclosão da palavra viva só se desse num excesso de transparência e de leveza![...] Poderão as palavras dizer as cores, a doçura, o perfume que transforma o exílio no claro paraíso do silêncio?
Agora escrevo na coincidência e na amplitude do aberto. As pobres palavras tornam-se ardentes, unificadas, vivas evidências de uma nudez enigmática. Quantos caminhos se abrem na página respirável, quanto azul se propaga nas palavras nuas, quanta sombra pelo calor adentro!

Ramos Rosa, «Um excesso de transparência e de leveza», in Clareiras, 1986.
Citação em Edição Especial da Revista "A Phala", Um Século de Poesia

domingo, 3 de Janeiro de 2010

Iluminado por dentro como as estrelas


O homem não é o mundo em viva síntese consciente?
A natureza, para o criar, serviu-se de todos os seus materiais. Nós somos um edifício construído por fora com toda a terra e iluminado, por dentro, com todas as estrelas. E nele, vive silencioso e prisioneiro, o fantasma do seu arquitecto.


Teixeira de Pascoaes, Aforismos

sábado, 2 de Janeiro de 2010

Páginas excepcionais # 24 "o riso"


«Sinto pena dele - admite o Português.
- Pois eu estou-me merdando para o gajo - remata Bartolomeu.
Ri-se para reafirmar o desprezo. E logo lhe sobrevém um ataque de tosse que o deixa sem respirar.
- Puta de vida - diz -, não vivemos se não nos rimos e depois morremos por nos termos rido - e conclui, após recuperar o fôlego:- O Doutor acha que sou uma anormalidade?
O médico olha para o parapeito e estremece de ver tão frágil, tão transitório aquele que é o seu único amigo em Vila Cacimba. o aro da janela surge como uma moldura da derradeira fotografia desse teimoso mecânico reformado.
- Posso fazer-lhe uma pergunta íntima?
- Depende - Responde o Português.
- O senhor já alguma vez desmaiou, Doutor?
- Sim.
- Eu gostava muito de desmaiar. Não queria morrer sem desmaiar.
O desmaio é uma morte preguiçosa, um falecimento de duração temporária. O português, que era um guarda-fronteira da Vida, que facilitasse uma escapadela dessas, uma breve perda de sentidos.
- Me receite um remédio para eu desmaiar.
O Português ri-se. Também a ele lhe apetecia uma intermitente ilucidez, uma pausa na obrigação de existir.
- Uma marretada na cabeça é a única coisa que me ocorre.
Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior
que fomos perdendo á medida que o mundo foi deixando de ser nosso.»


Mia Couto
Venenos De Deus Remédios Do Diabo

sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

decifrar a vida


En medio de todo esto,
los niños siguen arrojando
sus caídos dientes a la luna,
suplicando nuevos alfabetos de hueso
para nombrar la vida.

No meio de tudo isto,
os meninos continuam atirando
seus dentes caídos para a lua,
pedindo novos alfabetos de osso
para decifrar a vida.
(tradução livre)


Julia Otxoa García
Espacio/Espaço Escrito Revista de Literatuta en dos lenguas
Números 17 y 18, Badajoz 1999/2000

DESEJO DE LIBERDADE para o novo ano (2010)



“Se o mundo se transformou numa coisa mal-humorada, isso deve-se, sem dúvida, ao facto de agora ser preciso muito dinheiro para viver. A vida é muito simples, mas tudo conspira para a tornar complicada. É quando nos vemos livres da ambição do dinheiro, do orgulho ou do poder que a vida se revela formidável.”

ALBERT COSSERY
Os Mandriões do Vale Fértil.
Editora: Antígona

quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

seguir o vôo da ave...

Pintura de Vieira da Silva

Saí de casa na madrugada. Levava na ideia caminhar sem destino certo, avançando ao sabor do encontro e desencontro dos caminhos.
Pensei apenas em caminhos de terra vermelha, solta, e macia, caminhos por onde ninguém tivesse passado, abertos por mim na hora.
Caminhei por entre campos, matas, bosques e florestas. Dormi ao relento, ao frio e ao calor.
Sei que me proponho caminhar para sempre, porque é o único destino que me apraz.
Não me quero sentar muito tempo, nunca mais. Nem saber o preço das coisas que se compram, nem quanto ganham as pessoas, nem que bens tem o dono dos sítios por onde passo.
Satisfaço-me com o encontro do caminho e com a alegria de o fazer.
Posso seguir o vôo de uma ave, decidir endireitar o pé de uma árvore jovem, na floresta, ou dormir embalado pelo mar todo um dia.
Não tenho pressa. Não tenho dever. Não conheço ninguém. E nada espero.
Já não tenho sapatos e as roupas que uso já não são minhas.
A minha alegria é caminhar e surpreender-me com a caminhada.
Vivo de quase nada. Os meus olhos cresceram, memória das visões de tantos mundos.
As minhas mãos encolheram, não precisam de afastar, ter ou recolher.
Estou finalmente só
Eu...

P.M.

Profecia de ilusões #18 "a sombrinha"

The Umbrella By Luminatii
A sombrinha é pintada de negro andorinha, caído do céu.

Gerês

Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam a passear
lá fora na relva
Esta noite
até os atacadores dos sapatos floriram .

Jorge de Sousa Braga

quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

A Partida

Dei ordens para irem buscar o meu cavalo ao estábulo. O criado não me entendeu. Fui eu próprio ao estábulo, selei o cavalo e montei. Ouvi ao longe o som de uma trombeta e perguntei-lhe o que era aquilo. Não sabia de nada, não tinha ouvido nada. Junto ao portão, fez-me parar e perguntou: «Aonde vais, senhor?» «Não sei», respondi, «para longe daqui, para longe daqui. Sempre para mais longe daqui, só assim poderei chegar ao meu destino.» «Então sabes qual é o teu destino?», perguntou. «Sim», respondi eu, «ouviste o que eu disse: "longe-daqui", é esse o meu destino.» «Mas não levas farnel», disse ele. «Não preciso de farnel», respondi eu, «a viagem é tão longa que vou de certeza morrer de fome se não me derem alguma coisa pelo caminho. Nâo há farnel que me possa salvar. Felizmente, é uma viagem verdadeiramente extraordinária.»

Franz Kafka
in Parábolas e fragmentos

A Última Pincelada


Viveu em tempos um pintor
que nunca conseguia acabar de pintar uma
ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça.
Quando se preparava para dar
a última pincelada, ela levantava vôo.
E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la
com o pincel no céu
azul...

Jorge de Sousa Braga

terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Dança sobre cabeça de alfinete

" Agora estavam realmente casados havia mais de metade da vida dela. Uma eternidade, chamara-lhe ela. E assim seria, se a eternidade fosse flexível, e quem poderia afirmar que não era? Qual seria a diferença entre a amplitude da eternidade e o número de anjos capazes de dançar sobre uma cabeça de alfinete? Uma briga de filósofos."


Colleen McCulloug
O Toque de Midas

O Melhor do Mundo são as Crianças


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre,
bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor,
quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

Paginas excepcionais # 23 "não há linguagem sem engano"


"De todas as mudanças de língua que tem de enfrentar o viajante em terras longínquas, nenhuma iguala a que o espera na cidade de Hipácia, porque não diz respeito às palavras mas sim às coisas. Entrei em Hipácia uma manhã, um jardim de magnólias reflectia-se em lagunas azuis, eu andava por entre os canteiros seguro de descobrir belas e jovens damas a tomar banho: mas no fundo das águas os caranguejos mordiam os olhos das suicidas de pedra atada ao pescoço e cabelos verdes de algas. Senti-me defraudado e pretendi pedir justiça ao sultão. Subi as escadarias de pórfiro do palácio de cúpulas mais altas, atravessei seis pátios de azulejos com repuxos. A sala no meio estava barrada por grades: os forçados com negras correntes amarradas aos pés içavam pedras de basalto de uma mina que se abria debaixo da terra. Só me restava interrogar os filósofos. Entrei na grande biblioteca, perdi-me entre as estantes que vergavam sob o peso das encadernações de pergaminho, segui a ordem alfabética de alfabetos desaparecidos, subi e desci corredores, escadas e pontes. No mais remoto gabinete dos papiros, numa nuvem de fumo, apareceram-me os olhos apatetados de um adolescente deitado numa esteira, que não tirava os lábios de um cachimbo de ópio.— Onde está o sábio? — O fumador indicou-me a rua pela janela. Era um jardim com jogos infantis: os jogos de paulitos, os baloiços, o escorrega. O filósofo estava sentado na relva. Disse: — Os sinais formam uma língua, mas não a que julgas conhecer. — Compreendi que devia libertar-me das imagens que até aqui me haviam anunciado as coisas que procurava: só então conseguiria entender a linguagem de Hipácia. Agora basta que oiça relinchar os cavalos e zunir os chicotes e logo me assalta uma trepidação amorosa: em Hipácia tive de entrar nas cavalariças e nas oficinas dos ferradores para ver as belíssimas mulheres que montam nas selas de coxas nuas e polainas nas pernas, e que mal se aproxima um jovem estrangeiro o deitam sobre montes de feno ou de serradura e o apertam com os rijos mamilos. E quando a minha alma não pede outro alimento e estímulo que não seja a música, sei que tenho de procurá-la nos cemitérios: os tocadores escondem-se nos túmulos; de uma cova para outra correspondem-se trinados de flautas e acordes de harpas. Decerto mesmo em Hipácia também chegará o dia em que o meu único desejo será partir. Sei que não deverei descer ao porto mas sim subir ao pináculo mais alto da fortaleza e esperar que passe um navio lá por cima. Mas passará alguma vez? Não há linguagem sem engano."

Italo Calvino, in As Cidades Invisíveis

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Galeria de retratos *1 "Alice, flor de malvaísco"


Alice
Era uma mulher indómita.
Deambulava de dia ou de noite por Jovim.
Andava sem destino firmado ou definido.
Comia quando os pobres se cansavam de a ver beber.
Vestia a roupa sem olhar o lado ou o tempo.
Saía igual com a virtude ou com a perversidade.
Encontrava-se muitas vezes com destinos trágicos
e engravidava frequentemente deles.
Sofria dores nunca contadas
ouvidas em gritos que rasgavam noites de bréu.
Perdera tudo.
Os pais que a tinham semeado.
O homem que a fizera flor.
Os filhos que gerara e não criava.
Desapareceu ela e a bebida que calava debaixo da saia
num dia frio de Dezembro.
Não a procuraram.
Os cães encontraram-na, num dia de Primavera
nos limites de Jovim
no fundo de um poço
rodeado de flores de malvaísco.


P.M.

Janelas de segredos e perfumes



Escreves nas linhas da tua mão.
O espaço meu
onde se elevam os lábios, o peito e os dedos,
mãos de linho que visitam o meu corpo,
respirando nas suas janelas
segredos e perfumes.

Na hora em que tuas mãos se marcam
com sinais de pele e vertigem
meus ouvidos vagueiam pela floresta luxuriante
onde foi produzido o primeiro canto selvagem.

As bocas anseiam por águas frescas
Vinhos frutados
Romãs
Cerejas…

Desejam nossos sentidos aromas de canela
Limão
Suor…

O ímpeto que agita nossos corpos
torna os dedos loucos,
as mãos em garras, escalam montanhas e
vagas gigantes.

No marulhar das vagas oscilantes,
por entre os fluidos e os relâmpagos,
a música navega.

A lua dita eróticas conjunções
anunciando varandas de sol onde se criam sementes.
P.M.

páginas excepcionais # 22 "arame farpado e roupa ao vento"



"Caiu a noite, uma noite tal que se percebeu que olhos humanos não a poderiam presenciar e sobreviver. Todos o sentiram: nenhum dos guardas, nem italianos nem alemães, teve a coragem de ir ver o que é que faziam os homens quando sabiam que iam morrer.
Cada um despediu-se da vida da forma que lhe era mais própria. Alguns rezaram, outros beberam para além do normal, outros inebriaram-se com a última nefanda paixão. Mas as mães ficaram acordadas para preparar com amoroso cuidado a comida para a viagem, e lavaram os filhos, e fizeram as malas, e de madrugada os arames farpados estavam cheios de roupas de crianças estendidas a secar ao vento: e não se esqueceram das fraldas, dos brinquedos, das almofadas e das cem pequenas coisas que elas bem conhecem, e das quais os filhos sempre precisam. Não fariam também o mesmo? Se amanhã esperassem ser mortos com o vosso filho, não lhe davam hoje de comer?"


Primo Levi
Se Isto É Um Homem

quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

Ao menino Jesus da infância


Descalço venho dos confins da infância,
E a minha infância ainda não morreu...
Em face e atrás de mim ainda há distância.
Ó Menino Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho (e nada tenho!) é Teu!

(Pedro Homem de Mello)

terça-feira, 22 de Dezembro de 2009


Profecia de ilusões *17 "anónimos"


O medo e o silêncio rastejam unidos e anónimos para criar pessoas vazias de pensamento e vontade.

domingo, 20 de Dezembro de 2009

Desconstruções *22 "o silêncio"


O silêncio tem esquinas impossíveis de dobrar pela ausência de palavras.

Paginas excepcionais # 21 "levado pelo vento"


"Perdi o amor por essa espécie de terra, pensou, já não me interessa senti-la entre os dedos. Já não quero o verde e o cas­tanho, mas o amarelo e o vermelho; não a humidade, mas a ari­dez; não a sombra, mas a luz; não o macio, mas o duro. Estou a transformar-me numa outra espécie de homem, se é que há duas espécies de homens. Se me cortassem, disse, estendendo os pulsos, olhando os pulsos, o sangue não jorrava; havia de infiltrar-se nos poros e secar. Cada dia que passa, tomo-me mais pequeno, mais duro e mais seco. Se morresse aqui, à en­trada da caverna, ao olhar para a planície, com a cabeça apoia­da sobre os joelhos, um dia seria levado pelo vento e mantido intacto, como alguém sufocado pela areia do deserto. Nos seus primeiros dias no alto da montanha, saía a va­guear, virava pedregulhos, mastigava raízes e bolbos. Um dia abriu um formigueiro e comeu as larvas, uma a uma. Sabiam a peixe. Mas agora já não ia à aventura para comer e beber. Não explorava o seu novo mundo. Não transformou a caverna em habitação, nem lá guardava qualquer recordação dos dias que iam passando. Nada havia que esperar e apenas contemplava, todas as manhãs, a sombra da montanha que se alongava cada vez mais até ele e, de repente, era invadido pela luz. Sentava­-se ou deitava-se, como um sonâmbulo, à saída da caverna, de­masiado fatigado para se mover ou demasiado indiferente. Às vezes dormia tardes inteiras; e acudia-lhe à mente se estaria a viver numa espécie de êxtase."

JM Coetzee, A Vida e o Tempo de Michael K

sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Primeira página IV "A Madrugada"

"A Manhã vem chegando devagar, sonolenta; três quartos de hora de atraso, funcionária relapsa. Demora-se entre as nuvens, preguiçosa, abre a custo os olhos sobre o campo, ai que vontade de dormir sem despertador, dormir até não ter mais sono! Se lhe acontecer arranjar marido rico, a Manhã não mais acordará antes das onze e olhe lá. Cortinas nas janelas para evitar a luz violenta, café servido na cama. Sonhos de donzela casadoira, outra a realidade da vida, de uma funcionária subalterna, de rígidos horários. Obrigada a acordar cedíssimo para apagar as estrelas que a Noite acende com medo do escuro. A noite é uma apavorada, tem horror às trevas.
Com um beijo, a Manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a caminhada em direcção ao horizonte. Semi-adormecida , bocejando, acontece-lhe esquecer algumas sem apagar. Ficam as pobres acesas na claridade, tentando inutilmente brilhar durante o dia, uma tristeza. Depois a Manhã esquenta o sol, trabalho cansativo, tarefa para gigantes e não para tão delicada rapariga."


Jorge Amado in o Gato Malhado e a Andorinha Sinhá

terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Paginas excepcionais # 20 "Gherardo"




«O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver. Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo. Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.»

Marguerite Yourcenar, in O Tempo esse grande escultor, Gherardo Perini.

Desconstruções # 22 "cerejas cristalizadas"

No Inverno a cerejeira dá cerejas cristalizadas.

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

mulheres de pedra


«As mulheres de pedra são mais castas que as outras, e mais fiéis, porém, são estéreis. Não há fenda por onde se possa introduzir nelas o prazer, a morte, ou a semente de uma criança, e por isso elas são menos frágeis. Por vezes, quebram-se e em cada pedaço de mármore fica contida a sua beleza inteira, como Deus que está em todas as coisas, mas nada de estranho entra nelas que dilate o seu coração. Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem, mas as coisas só belas são solitárias como a dor humana.»

Marguerite Yourcenar in o Tempo esse grande escultor, Gherardo Perini.

Págianas excepcionais # 19 "saudades de Deus"


«Passei a noite acordado a ver coisas que não conseguia perceber o que eram. Preferia nunca as ter visto. Pareciam formas que não eram humanas nem animais. De vez em quando mexiam-se, ou faziam barulhos sem explicação. Tive saudades de Deus. Era o único que naquele tipo de ocasiões conseguia fazer companhia a uma pessoa. Por mais selado que fosse o buraco em que estávamos enfiados, havia sempre uma nesga por onde Ele conseguia infiltrar.»

Ricardo Adolfo in Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas. Editora Objectiva-Alfaguara

sábado, 12 de Dezembro de 2009

Murmúrio de vento


"Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?"

José Saramago, Os Poemas Possíveis

Eco de silêncio


"Não tinhas
nome. Existias
como um eco
do silêncio. Eras
talvez
uma pergunta
do vento."

Albano Martins, Como um Eco

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

Páginas excepcionais #18 "íntimas colinas"

- Diz-me onde é que ela estava quando a viste pela última vez - disse eu.
Ele apontou.
- Estava a subir aquela colina além.
Deixei-o ali e caminhei cerca de quatrocentos metros até ao topo da colina. Fazia tanto frio que tive de levantar as golas do casaco para proteger o pescoço. Sob os meus pés, a terra era uma mistura de areia castanha grossa e pequenas pedras, o leito de um qualquer mar pré-histórico. Para lá da colina havia outras colinas semelhantes, centenas delas, sucedendo-se até ao infinito. A terra arenosa não mostrava pegadas, nenhum sinal de que alguém tivesse passado por ali. Continuei a avançar, cambaleando sobre o solo traiçoeiro que cedia ligeiramente sob o meu peso e resvalava em torrões de areia cinzenta.
Após cerca de três quilómetros, sentei-me a descansar numa pedra branca e redonda. Estava a suar, apesar do frio cortante. A norte, a lua começara a descer. Já devia passar das três da madrugada. Tinha avançado a um ritmo regular, mas lentamente e ao ziguezagues. As colinas e os montículos de terra estendiam-se até ao horizonte negro, cobertos pior cactos, artemísias e feios arbustos cujo nome desconhecia.
Lembrei-me de ter visto mapas daquela região. Não havia estradas, nem aldeias, nem vida humana entre este e o outro extremo do deserto, nada além de terra estéril que se estendia por mais de centena e meia de quilómetros. levantei-me e continuei a avançar. Estava entorpecido de frio, mas o suor escorria-me pelo corpo. A leste, o horizonte acinzentado iluminou-se, assumiu um tom rosado, depois vermelho, até que por fim a bola de fogo gigante surgiu por detrás das colinas escuras. Sobre a desolação da terra reinava uma indiferença suprema, a simples rotina do novo dia que se sucedia à noite, e, contudo, a intimidade secreta daquelas colinas e o seu mistério consolador e mudo tornavam a morte um facto de pequena importância. Podíamos morrer, mas o deserto guardaria o segredo da nossa morte, sobreviver-nos-ia, cobriria a nossa memória com vento, calor e frio eternos.
Era escusado continuar. Como podia eu encontrá-la? E porque havia de a procurar, se tudo o que podia propor-lhe era um regresso à selva brutal que a destruíra? Voltei para trás, tristemente, sob a luz do alvorecer. Camilla pertencia agora às colinas - que elas a protegessem! Deixa-a regressar à solidão das íntimas colinas. Que viva com as pedras a céu aberto, com o vento a soprar-lhe nos cabelos até ao fim. Deixa-a ir em paz.
O sol já ia alto quando alcancei a cabana. O calor começava a apertar. Sammy estava parado sob o umbral da porta.
- Encontraste-a? - perguntou.
Não lhe dei resposta. Estava exausto. Ele fitou-me por alguns momentos e depois recolheu-se. Ouvi-o trancar a porta. O calor tremeluzia sobre o vasto horizonte do Mojave. Dirigi-me ao Ford, levantei do assento o exemplar do meu livro e escrevi na primeira página:

Para Camilla, com amor,
Arturo

De livro na mão, avancei uns cem metros pela desolação adentro, no sentido sudeste. Lancei o livro pelo ar, com toda a força, na direcção que ela tinha tomado. Depois meti-me no carro, liguei o motor e regressei a Los Angeles.

John Fante in Pergunta ao Pó

Desconstruções # 21 "sucesso"


O sucesso transformou-se numa nova e perigosa arma de pressão, cuja chave o poder se vem apressando a dominar.

A vista da minha língua


"Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em
que se traçam os limites do nosso pensar e
sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha
língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se
ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto.
Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação"

Vergílio Ferreira, Espaço do Invisível V

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

DOMINGA I


Não sei se conhecem Heidelberg, famosa pela sua universidade e pelos brinquedos de madeira destinados ao Natal. Isto dos brinquedos é coisa minha. Também há ursos cor-de-rosa, com uma grande barriga, como se faziam no século passado, no estilo dos contos ingleses para crianças. Depois os ursos de peluche tornaram-se mais laváveis e sem aqueles focinhos bordados a algodão perlé por uma mulherzinha que usava ainda o avental da camponesa do Palatinado e, provavelmente, os sapatos de montanha, de vitela com ilhós.
Eu passei um inverno em Heidelberg, em casa de uma escritora que estivera a maior parte da vida no exílio e que tinha mais de noventa anos. Era, no entanto, extremamente lúcida e com olhos azuis de uma beleza ofuscante. Chamava-se Dominga. Não sei se era um nome inventado, porque vivera em Santo Domingo durante alguns anos, decerto os mais felizes da sua vida. Fora casada com um diplomata e amava-o com essa austeridade dos sentidos com que algumas mulheres contemplam as suas próprias divagações.
Uma floresta em Heidelberg não é o que pensam. Não se parece com uma floresta, mas com alguma coisa de extinto e que só pertence aos nossos sonhos. Eu imagino que na planície castelhana, onde viviam as tartarugas gigantes antes do aquecimento da terra, havia aquele silêncio que fazia perceptível a queda de uma gota de chuva no ar limpo e onde ondulavam as folhas mortas. Levavam uma infinidade de tempo a cair ao chão e eram manobradas pelo vento como as velas de um barco.
A Casa de Dominga, um chalet grande e rasgado de muitas janelas, encontrava-se dentro de um parque sempre húmido e prestes a cair em decomposição. Muitas das casas da floresta estavam encostadas à ravina onde apareciam corças com o ar que lhes ficara do tempo das caçadas, um ar delirante de medo que lhes fazia tremer as orelhas. Mas a casa de Dominga era mais do tipo heráldico, com um portão de ferro que, devido à ferrugem, nunca se fechava.
Eu ocupava o quarto voltado a nascente, onde o marido morrera com um cancro do pâncreas, e digo-lhes que levei algum tempo a habituar-me, embora tudo me parecesse elegante e duma extrema e confortável simplicidade. As paredes estavam cobertas por estantes cheias de livros em línguas que eu não entendia, como o russo e o polonês. Num canto havia um lavatório com tampo de mármore e um saboneteira de loiça. levantei a tampa e surpreendeu-me um sabonete molhado, como se alguém acabasse de se servir dele.
- Esteve alguém neste quarto antes de mim? - perguntei a Dominga. Ela servia-me o chá e empurrou ligeiramente o prato dos biscoitos que se diriam paciências, mas com sabor de menta.
- Não. Ninguém usa esse quarto há muito tempo. - Fez uma pausa embaraçada e disse:- Era o escritório do meu marido.
Já ninguém tinha escritórios e a própria Dominga escrevia no quarto de dormir que era grande, com um leito de campanha e uma pomba de talha dourada pendurada por cima dela. A pomba tinha laivos cor-de-rosa no peito e Dominga disse que ela sangrava. "É um pomba estigmatizada"- disse, com uma espécie de humor frio e completamente calculista indiferente ao que eu podia pensar. (Continua)


Agustina Bessa-Luis in Dominga