domingo, 6 de dezembro de 2009

Páginas excepcionais # 15 "a aparência"


«O homem dos lábios com vitiligo gritou: - Vejam só aquilo ali! Lá estão eles outra vez com a mesma coisa...
Aborrecido com a interrupção, o motorista que segurava a revista continuou a ler... Os outros motoristas, porém, já se tinham levantado e olhavam na direcção do centro comercial.
O que estava a acontecer, senhor primeiro-mistro, era um daqueles incidentes tão corriqueiros nos primeiros tempos dos centros comerciais e que costumavam ser noticiados nos jornais sob o título de «Não Haverá Lugar para os Pobres nos Centros Comerciais da Índia»?
As portas de vidro abriram-se, mas o homem que pretendia entrar não foi autorizado a fazê-lo.
O segurança que estava à porta impedira-o. Ele apontou o bastão aos pés do homem e abanou a cabeça; o homem estava de sandálias. Todos nós, os motorisats, também estávamos de sandálias. Mas todas as pessoas que tinham permissão para entrar no centro comercial iam de sapatos.
Ao invés de dar meia-volta e de se ir embora (como nove em dez no lugar dele teriam feito), o homem de sandálias insurgiu-se:- Não serei por acaso um ser humano como eles?
Berrou com tanta convicção que a saliva lhe jorrou da boca como uma fonte e os joelhos lhe tremeram. Um dos motoristas soltou um assobio. Um indivíduo que estivera a barrer o recinto exterior do centro comerical pousou a vassoura e deixou-se ficar a assistir.
Por um instante, o homem à porta parecia pronto para agredir o segurança... Mas acabou por dar meia-volta e ir-se embora.
- Aquele fulano tem tomates - comentou um dos motoristas.- Se fôssemos todos assim, haveríamos de governar a Índia, e seriam eles a engraxar-nos os sapatos.
Posto isto, os motoristas regressaram ao seu círculo. A leitura da história foi retomada.
Eu observei as chaves a rodopiar na corrente. Observei o fumo a elevar-se dos cigarros. Observei a paan a atingir o chão em diagonais vermelhas.
A pior parte de ser motorista é que estamos horas e horas por nossa conta enquanto esperamos pelo patrão. Podemos passar este tempo na conversa e a coçar os tomates. Podemos ler revistas de homicídios e violações. Podemos adquirir o hábito típico dos motoristas - é uma espécie de yoga, na verdade - de enfiarmos o dedo no nariz e de nos deixarmos abstrair durante horas (deviam chamar-lhe asana do motorista entediado). Podemos esconder uma garrafa de álcool indiano no carro; o tédio tem feito de muitos motoristas honestos uns autênticos bêbados.
Contudo se o motorista vir no seu tempo livre uma oportunidade, se o aproveitar para reflectir, então a pior parte do seu trabalho transforma-se na melhor.
Nessa noite, enquanto conduzia de regresso ao apartamento, olhei pelo espelho retrovisor. O Sr. Ashok trazia uma T-shirt vestida.
Não era uma T-shirt que algum dia me desse para comprar num armazém. Era quase toda branca e sem dizeres nenhuns, só um pequeno desenho no meio. Eu teria comprado qualquer coisa muito mais garrida, toda cheia de palavras e desenhos. Bem sei o quanto o dinheiro custa a ganhar.
Foi então que, certa noite, depois de o Sr. Ashok e a Madame Pinky terem subido, eu fui ao mercado da localidade. Ao clarão das lâmpadas amarelas despidas, havia homens agachados na rua, a vender cestas cheias de pulseiras de vidro, braceletes de metal, brinquedos, lenços para a cabeça, canetas e correntes para as chaves. Encontrei o fulano que vendua as T-shirts.
- Não - dizia eu constantemente perante cada camisola que ele me mostrava... Até que descobri uma que era toda branca com uma pequena palavra em Inglês no meio. Depois fui à procura do homem que vendia sapatos pretos.
Nessa noite, comprei a minha primeira pasta dos dentes. Comprei-a ao homem que me costumava vender a paan; tinha um negócio paralelo de pastas dos dentes que eliminavam os efeitos da paan.

BRANQUEADOR SHAKTI
COM CARVÂO e CRAVINHO PARA LIMPAR OS SEUS
DENTES
APENAS UMA RUPIA E CINQUENTA PAISAS!

Enquanto eu escovava os dedos com o dedo, reparei no que a minha mão esquerda estava a fazer: tinha deslizado para entre as minhas pernas sem eu dar por isso - como um lagarto corre furtivamente por uma parede abaixo - e já se preparava para começar a coçar.
Deixei-me ficar à espera. Mal ela se mexeu, agarreia-a com a mão direita.
Belisquei a pela grossa entre o polegar e o indicador, onde dói mais, e segurei-a assim durante um minuto. Quando a larguei, formara-se um vergão vermelho na pele da palma da minha mão.
«Bem feito.
Daqui em diante, sempre que te puseres a coçar os tomates, será este o teu castigo»
Na minha boca, a pasta dos dentes ganhara a consistência duma espuma leitosa; começou a pingar-me pelos cantos dos lábios. Cuspi-a.
Escova. Escova. Cospe.
Escova. Escova. Cospe.
Porque é que o meu pai nunca me ensinara a não coçar os tomates?
Porque é que o meu pai nunca me ensinara a lavar os dentes com espuma leitosa? Porque é que ele me educara como um autêntico animal? Porque é que todos os pobres têm de viver no meio de tanta imundície, de tanta fealdade?
Escova. Escova. Cospe.
Escova. Escova. Cospe.
Oxalá um homem pudesse cuspir o seu passado com a mesma facilidade.»

Aravind Adiga, in o Tigre Branco.

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