terça-feira, 19 de março de 2013

nome muito estrangeiro


"Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era
preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida
multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu
escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua
durante um parque inteiro, de repente voltava-se
e acontecera um crime, os jornais diziam, ele
vinha em estado completo de fotografia
embriagada, descobria-se sangue, a vítima
caminhava com uma pêra na mão, a boca estava
impressa na doçura intransponível da pêra, e
depois já se não sabia o que fazer, ele era belo
muito, daquela espécie de beleza repentina e
urgente, inspirava a mais terrível acção do
louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava
que tivéssemos muito silêncio para isso, e então
os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio
habitava uma montanha intensa, e mais tarde às
noites trocavam-se e no meio o que existia agora
era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e
desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar
imóveis e sem compreender, porque ele era uma
criança assassina e andava pela terra com as suas
camisas brancas abertas, as suas camisas negras e
vermelhas todas desabotoadas."

Herberto Helder, Poesia Toda

1 comentário:

Amanhecer Hoje disse...

Excelente...
gosto muito de ler o que escreve.
beijinhos