sexta-feira, 14 de maio de 2010

se isto não é sexo...


- Que é isto?
um estacionamento em que nada fazia sombra em nada, candeias à pesca ao longe, sempre duplas, a da traneira e a da água, a primeira para cima e a segunda para baixo semando a solidão de damas de copas, um carro melhor que o nosso a oscilar para a frente e para trás também de faróis apagados a impedirem que os toiros o vissem, um dos meus pés torcia-se contra o volante, a alavanca das mudanças trilhando-me os rins, um dos rins, enfim o que julgo um dos rins, o do lado oposto amolgava-se no relevo do banco, o meu corpo feito de peças escessivas que estorvavam, nunca esperei que o mar tanto cotovelo que me rasgava a blusa, estou de acordo consigo mãe, que é isto, a minha mãe a aumentar as nódias esticando o tecido
- Não repitas o que eu digo
de boca a tremer no sofá estudando a roupa a aproximá-la do nariz, eu
- Vai assoar-se a mim?
e na altura em que o mar se calou o meu marido calado, mais novo do que parecia antes, a desmoronar-se com palmas que não lhe pertenciam
(pouco lhe pertencia na sua aflição)
ou antes a desamarrotar o que fizemos a fim de supor que não fizemos nada
- Palavra de honra que não fizemos nada
embora a minha mãe
- Que é isto?
não fizemos nada, se ao menos os cavalos regressassem à praia e as sombras pisando o que a vazante deixou, caniços, óleo, algas, uma asa de bilha, o meu marido...

António Lobo Antunes
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?

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